
Qualquer estudante de arquitetura de primeiro ano já passou por isso: os primeiros projetos são objetos, entidades independentes, que vão “pousar” em qualquer base, um terreno fictício, plano, limpo, árido e inabitado.
Infelizmente (ou felizmente) o mundo não é assim: a cidade já aconteceu e acontece onde o arquiteto tem que intervir, a natureza tem seus caprichos, aclives e declives, pedra, morro, areia, água, floresta. A maestria, a delicadeza, a sabedoria de lidar com o terreno e com a paisagem é algo que admiramos tremendamente. Esse é o espírito de algumas das obras que selecionamos para esse post, por seu brilhantismo em perceber que fazer arquitetura também é interação com o existente, também é construir o território.
Projeto do escritório japonês Sambuichi Architects, o Inujima Art Project se apropria do que sobrou de uma antiga refinaria em Inujima, minúscula ilha próxima à Honshu, no Japão. Preservando algumas partes da antiga construção, como a torre que serve como marco vertical, enterrando a maior parte do programa do centro cultural, Hiroshi Sambuichi revela a paisagem rochosa da ilha, o oceano, o horizonte.
Segue a mesma linha o projeto do escritório Kimmel Eshkolot para o Davidson Center, museu dedicado à história das sucessivas ocupações da cidade de Jerusalém. No lugar da natureza, o pano de fundo desse projeto é a Old City e suas muralhas, sítios arqueológicos impregnados por centenas de anos de cultura. Enterrar o museu, nesse caso, é dar a perspectiva do que realmente importa, do que deve ser visto. A boa arquitetura é, algumas vezes, aquela que sabe ser invisível.
O Templo na Água, do Tadao Ando, além da doce alusão à imersão na profundidade, à medida que entramos por um rasgo na água (afinal, se trata de um templo), usa a paisagem a serviço do encanto, da surpresa, do inimaginável. Sim, porque a arquitetura não precisa ser apenas funcional.
Quando a paisagem é São Paulo, o projeto do Paulo Mendes da Rocha para o MUBE é uma lição. Incorporando no projeto da diferença de nível que o terreno possuía, o museu enterrado com o páteo a céu aberto (apesar de protegido, simbólica e praticamente, pela grande viga de concreto armado), na cota avenida Europa, nos faz pensar e sonhar com essa cidade de térreos livres, transparentes.
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