terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

VERNACULAR EM CONTEMPORÂNEO - ARQUITETURA EM TERRA [texto publicado na revista Casa Vogue, 2007]

Recentes alertas e projeções de cientistas ambientais têm colocado em pauta discussões sobre o esgotamento dos recursos naturais do planeta e apontado a sustentabilidade da arquitetura, assim como a de tantos outros setores, como urgente e inevitável.

Mas a arquitetura sustentável não é uma novidade da sociedade atual, ou um reflexo da preocupação contemporânea com o meio ambiente. Essa arquitetura sempre existiu. Nascida da intuição de seus construtores, da experiência empírica, da busca pelo conforto em situações climáticas extremas, a arquitetura vernacular encontra soluções inteligentes, eficazes e – mesmo sem saber – sustentáveis. As casas marroquinas enterradas nas montanhas, as contruções árabes no deserto, a cabana dos africanos e dos índios americanos, o iglu esquimó e a arquitetura colonial são exemplos de projetos afinados com as necessidades climáticas, construtivas e econômicas do seu entorno.

Alcançar a sustentabilidade (seja da casa, do edifício ou da cidade) não significa, necessariamente, depender de enormes investimentos e de tecnologias caras e inacessíveis. Tampouco significa adotar soluções provisórias, de baixo custo mas pouco eficientes. Um projeto sustentável depende de soluções inteligentes, planejamento, reflexão, respeito à tradição e à cultura, inovação tecnológica e inventividade, independentemente de orçamento ou tamanho do projeto.

Arquitetura em terra

Uma das questões mais importantes na arquitetura contemporânea é a escolha adequada de materiais e elementos construtivos. Nesse contexto, a utilização da terra em alvenarias vem atraindo novamente a atenção dos arquitetos.

A terra crua não é poluente, quase não consome energia em sua produção, envolve processos de baixo custo e é reciclável. Além disso, tem excelente inércia térmica, bom isolamento acústico, boa resistência estrutural, ajuda a regular a umidade do ambiente interno e não propaga fogo. A alvenaria de terra pode utilizar o barro da própria região onde a construção vai ser realizada, o que evita custos e prejuízos ambientais de deslocamento e transporte.

A terra crua como matéria-prima na construção tem sido usada desde o período pré-histórico, sendo muitas vezes estruturada com troncos e pedras, e finalizada com argamassas feitas com argila e areia. Os processos construtivos, que utilizam terra, mais comuns são a taipa de mão, a taipa de pilão e o adobe (tijolos de terra crua secos ao sol).

A taipa de pilão foi largamente utilizada no Brasil no período colonial, especialmente na região sudeste. Ela recebe esse nome por ser socada com o auxílio de um pilão, dentro de uma forma de madeira (taipal) garantindo que a terra não desmorone enquanto está úmida. A partir de 1850 os tijolos cozidos maciços começaram a aparecer em construções paulistas, e sua aplicação em larga escala levou à decadência da taipa de pilão, que caiu em desuso em São Paulo nas primeiras décadas do século XX.

Resgatando a arquitetura em terra

As técnicas tradicionais de construção em terra vêm sendo resgatadas e revigoradas por vários arquitetos que buscam projetos mais humanos, que respeitem a paisagem, o meio ambiente e a cultura onde se inserem. É o caso do arquiteto egípcio Hassan Fathy, cujo esforço em desenvolver e adotar soluções construtivas vernaculares tornou-se hoje referência para arquitetos do mundo todo.

Entre vários princípios adotados por Fathy e seus colaboradores, destaca-se a grande importância dada à utilização de alvenarias com grande inércia térmica em espessas paredes estruturais. Aliando princípios de ventilação, implantação e disposição de volumes, Hassan Fathy demonstrou, com sua arquitetura de idéias simples e técnicas milenares, que eficácia energética, integração com o ambiente e conforto para o usuário estão muito mais próximos do que pode parecer.

Arquitetura em terra e tecnologia

A arquitetura contemporânea pode e deve usar a tecnologia para desenvolver e modificar técnicas tradicionais de construção em terra, adequando-as às necessidades das construções atuais.

Um brilhante exemplo dessa possibilidade é o trabalho do arquiteto califoniano David Easton, que procura introduzir a alvenaria de terra em projetos de alto padrão. Além de modernizar a taipa de pilão tradicional, David Easton e sua equipe desenvolveram uma tecnologia chamada P.I.S.E. - Pneumatically Impacted Stabilized Earth (Terra Estabilizada Compactada Pneumaticamente), que explora a adaptabilidade da tecnologia pneumática de produção de concreto à da taipa de pilão tradicional.

Várias outras pesquisas e desenvolvimentos técnicos vêm possibilitando construções em terra em vários países, como os EUA, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, Chile e Brasil, colocando o vernacular e a tecnologia a serviço de uma arquitetura mais humana, responsável e eficiente.

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