terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

SÉRIE SUMARÉ [texto para trabalho acadêmico, pós-graduação em Design de Interiores, SENAC, 2008]

O primeiro motivo que me fez escolher essa obra foi o próprio espaço onde ela está inserida: a estação Sumaré do Metrô de São Paulo.

A estação Sumaré é uma feliz exceção entre as estações da cidade. Está implantada de maneira sensível no desenho da cidade, uma imensa plataforma de vidro flutuando sob o viaduto por onde passa a avenida Dr. Arnaldo. Sua plataforma é um mirante, de onde se vê uma paisagem genuinamente urbana: a Avenida Sumaré e seus congestionamentos, o skyline da cidade ao fundo, o trânsito, pessoas fazendo cooper no canteiro central.

A própria estação, por não ter conexões (como acontece com várias outras estações), possui um desenho simplificado, essencial. Se parece muito com uma estação de trem antiga, com os trilhos ao meio, as duas plataformas, a grande cobertura sustentada por uma estrutura metálica. Esses elementos trazem uma nostalgia, uma sensação de estar à beira da plataforma esperando o trem, a sensação de uma solidão muito urbana, que fica como plano de fundo, quase imperceptível, mas sensível.

Entre a plataforma e o exterior, ao invés da previsível parede de concreto, existe um fechamento em pele de vidro, o que torna a estação um espaço interessante e dramático no emaranhado urbano, especialmente à noite, quando parece uma nave acesa.

Nesse contexto, o artista brasileiro Alex Flemming insere sua obra. Uma instalação composta 44 painéis serigrafados, apresentando um apanhado de fotos de pessoas comuns. Sobre as fotos, trechos desconexos de poemas de alguns dos mais importantes poetas brasileiros, de várias épocas, entre eles Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, entre outros.

Acredito que, talvez um pouco diferente de outras obras inseridas no espaço urbano, essa obra, além do impacto visual, tem como apelo o impacto dos muitos significados e das impressões emocionais que causa no expectador, abrindo espaço para reflexões e questionamentos, se colocando como algo do qual precisamos extrair o sentido, ou os vários sentidos. Ela dialoga com todas as pessoas, que se colocam diante daquelas fotografias (e dos entrecortados textos coloridos sobre elas) e se identificam, percebem que é uma obra que quer falar para o homem comum, cotidiano.

O que faz com que a obra nos prenda a atenção, em um primeiro momento, é a escolha dos tipos fotografados. Por alguns instantes, tentamos identificar ou reconhecer rostos famosos, familiares de alguma maneira, até percebermos que são rostos anônimos, paulistanos, brasileiros. Tipos muito parecidos conosco ou com as pessoas que vemos todos os dias na rua, no trabalho, no metrô. Essa exaltação da figura do homem ordinário, comum, encontra eco em nossa percepção cansada do bombardeio de imagens de celebridades, famosos, personalidades, distantes de tudo o que conhecemos como real. Por um momento, nos sentimos como possível parte dessa obra, uma vez que não seria estranho imaginar o nosso próprio rosto ali.

A escolha dos tipos fotografados também não deixa de ser uma referência a identidade do povo brasileiro (e paulistano) diversificada, multifacetada, uma mistura de várias outras nacionalidades e etnias.

Outro aspecto que chama a atenção é a maneira, ou a pose, como essas pessoas são retratadas. Nós somos acostumados, de alguma maneira, a ver retratos (fotografia ou pintura) expressando um certo glamour, tratando de ressaltar qualidades, tentando criar um aspecto de magnânimo, inatingível. As fotografias de Alex Flemming surtem o efeito contrário.

Elas retratam rostos com a expressão mais cotidiana que se possa imaginar. Cansados, ou apáticos, desconfiados, indiferentes. Essa maneira de fazer o retrato nos aproxima muito daquelas figuras ali ampliadas, é como se fosse uma fotografia da nossa própria expressão naquele momento: um espelho.

Os textos coloridos sobre as fotos também provocam no expectador uma série de percepções. São coloridos, sobre figuras em preto e branco, como se de alguma maneira dessem vida, emoção aos retratos impessoais, que mais se parecem com fotografias de documentos ou passaporte. São desenhados com uma tinta ou resina mais espessa, quem observa de perto tem a impressão que alguém molhou o dedo em um balde de tinta e começou a escrever, desordenadamente, trechos de poemas que viessem à cabeça, sem lembrar algumas partes, pulando uns trechos. Esses trechos de poemas entrecortados, sugeridos, desorganizados parecem uma representação do nosso próprio pensamento. Vagando entre considerações sobre obrigações e deveres, surge um pedaço de poema, uma lembrança de uma conversa, um fragmento de uma memória. É como se a obra traduzisse o turbilhão de pensamentos e emoções que ficam sobrevoando sobre as questões práticas do cotidiano.

Ao contrário do que faz com a escolha dos tipos, o artista coloca poemas que muitas pessoas conseguiriam identificar, apesar de colocá-los camuflados, disfarçados. Quando você se aproxima tentando ler o que está escrito, e consegue identificar um trecho conhecido, a sensação é a de ter desvendando um enigma, algo que propositadamente está ali para ser reconhecido. E mais uma vez, é criada uma relação de intimidade do expectador com a obra.

A transparência é outro ponto muito interessante dessa obra, uma vez que cria vários planos que vão se sobrepondo à medida as pessoas e os próprios vagões do metrô atravessam o espaço. Para começar, a cidade é pano de fundo para os rostos. Mas os rostos retratam produtos dessa própria cidade, então não são planos separados: se misturam. Os rostos e a cidade são pano de fundo para as pessoas que transitam pela plataforma. Mas as pessoas que transitam pela plataforma também estão representadas naqueles rostos e logo estarão dispersas nessa cidade captada através do vidro: novamente se misturam. A cidade, os rostos e as pessoas transitando pela plataforma são pano de fundo para os vagões do metrô. Mas dentro do vagão estão mais pessoas em trânsito, e também lá estão (por conta da própria transparência das janelas do vagão) as pessoas da plataforma, os rostos e a cidade. Em alguns segundos, o quadro se dissolve, quando o vagão se afasta, mas logo se compõe novamente, quando os personagens dessa sobreposição se aproximam novamente, e assim por diante.

Quando esses planos - a cidade, os rostos,os passantes, o vagão, os passageiros - se sobrepõem, criam “fotografias”cheias de significados, que se desmancham e se recompõem, mas nunca são as mesmas – como a própria cidade.

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